Entre o lúdico e o conservador: como a cultura e a economia traduzem nossas crises e incertezas
Desde o “efeito batom”, economistas e sociólogos sabem que os sinais de uma crise aparecem antes nas pequenas escolhas do cotidiano do que nas planilhas oficiais. Hoje, eles se manifestam em tendências inusitadas. Entre cacarecos, “Retail Therapy”, “Quiet Luxury” e conservadorismo, revela-se um retrato silencioso da ansiedade coletiva: buscamos consolo no lúdico e segurança no simples, como se a economia ditasse não apenas o mercado, mas também os gestos mais íntimos do cotidiano. Gloss-haveiro, Labubu, Sonny Angels, Sylvanian Families, cacarecos. Objetos decorativos de tamanho reduzido se tornaram cada vez mais populares. O Labubu, inclusive, estourou a bolha, saindo do nicho de cacarecos e chegando ao cotidiano e às lojas mais diversas ao virar tema de materiais escolares, estampas de roupas, livros de colorir etc. Esses itens se popularizaram de forma ágil porque, além de colecionáveis (o que evoca uma certa ideia de ostentação), podem ser facilmente colocados em display: é possível prendê-los em bolsas, mochilas, no cós das calças e até em capinhas de celular. O desejo pelos produtos é ainda mais impulsionado não só pelas celebridades que “aderem à moda” e passam postar fotos e vídeos portando os acessórios ou as coleções de “especiais”, como também pela questão das “caixas surpresa” e das ”edições limitadas” ou “raras” aumentam o “hype” desses objetos, estimulando a compra muitas vezes impensada a partir de uma busca pela sensação de “mistério” ou de “prazer pela recompensa”, ainda mais em uma sociedade viciada em dopamina (matéria de um futuro post) como a atual. Além da óbvia alta do “recession core”, uma teoria que encaixa muito bem nesse contexto é o “Efeito batom”, cunhado em 1998 pela economista Juliet Schor: em tempos de recessão, consumidores tendem a investir em pequenos luxos, como itens cosméticos, a exemplo do batom, ou, à luz de hoje, os cacarecos. É um pequeno ato de controle e prazer em um contexto de insegurança. Isso leva a um comportamento que alguns chamam de “retail therapy”, um consumismo como forma de lidar com emoções negativas e buscar alguma sensação de prazer. O problema é que isso muitas vezes pode gerar bolhas especulativas, que elevam o valor desses produtos para além dos seus valores reais e práticos — o que permite que o valor de um Labubu, por exemplo, possa chegar até R$ 50.000,00 —, fenômeno já conhecido desde a década de 1630, devido a chamada “Mania das tulipas”, na República Holandesa: certos bulbos de tulipas raros se tornaram itens de luxo, com valores absurdamente altíssimos, apenas porque, infectados por um vírus, sofreram mudanças em suas colorações e chamaram a atenção dos compradores por serem bonitos e imprevisíveis. Paralelo a isso, vivemos hoje uma crise de identidade e de solidão. Presenciamos cada vez mais uma extinção — ou, em outra perspectiva, uma forte elitização — dos terceiros lugares, elementos essenciais para a criação de vínculos sociais, de exercício da sociabilidade e de construção da subjetividade. Socializamos bem menos, e vivemos vidrados em veículos midiáticos que nos moldam, nos padronizam, e nos colocam em “planilhas”. Não é loucura pensar que, num mundo como o nosso, pessoas busquem certa identificação e certo senso de pertencimento no consumo de produtos da moda. Consequentemente, um ramo que se beneficia muito disso é o FOMO marketing, que cria uma espécie de “economia de pertencimento”. Estamos sozinhos, nos sentindo cada vez mais excluídos e distantes por não sermos, ou não agirmos ou não gostarmos do que recorrentemente vemos nas redes sociais como o que “todo mundo gosta”, “todo mundo está fazendo”, “todo mundo tem”. Essencialmente, não é culpa ou ignorância, ou idiotice de quem consome e segue as “trends”, é simplesmente a atitude, a vontade e a busca de qualquer ser humano: se sentir aceito, pertencente a algum grupo. Acho muito importante enfatizar que esse texto não é uma “demonização” ou um “julgamento” de quem gosta, segue ou se insere nessas tendências, como se eu me colocasse num pedestal e dissesse “eu sou diferente, superior a tudo isso”. Pelo contrário, discuto isso como uma pessoa que se enxerga no meio desse contexto todo. Ninguém está imune às modas, às propagandas e às “trends”, e isso não é um crime ou uma chaga, é apenas o que é, sem juízo de valor. Outro lado dos indicadores de recessão pode ser bem menos colorido e divertido: o retorno de antigos padrões e do conservadorismo, expressos na alta dos corpos magros, das paletas neutras, do “quiet luxury”, da moda “cowboy” (a exemplo de Bella Hadid e Beyoncé), da “hiperfeminilidade” (mais conhecida aqui por “energia feminina”), das “trad wifes” (como Nara Smith e Hannah Neeleman, da Ballerina Farm), do retorno da “beleza natural” (que todos sabemos que vem de cirurgias) com as unhas neutras ou sem esmalte, os cílios sem máscara e a remoção dos preenchimentos labiais etc. À luz dos últimos desfiles de moda e das novas tendências nas lojas e redes, como a coleção “Laptop to lap dance”, de Stella McCartney, e as modas “business casual to club” e “office siren”, nota-se que a ascensão da moda corporativa e de roupas atemporais que possam ser usadas em diferentes ocasiões também se relaciona com a recessão e instabilidade econômica, já que o dinheiro para montar um guarda-roupa separado para o trabalho e para a vida pessoal é reduzido. Até porque, convenhamos, hoje, trabalha-se tanto que a pessoa literalmente vai “do escritório para a balada”, isso se conseguir ir, claro. O conservadorismo se mostra como um indicativo de recessão porque, em tempos de insegurança e instabilidade, as pessoas buscam valores que tragam certo senso de segurança para suas vidas e/ou mentes. Se nos anos de prosperidade prevalecem os exageros e a ousadia criativa, nos tempos de retração econômica há um retorno ao familiar e ao confiável, quase como um instinto de autopreservação cultural. É a velha nostalgia, que todos buscamos quando sentimos necessidade. Numa lógica como a atual, em que a ascensão social e econômica parece cada vez mais ser uma utopia, e apenas aqueles que nasceram em uma família abastada têm a certeza de que terão um futuro garantido, condições básicas de sobrevivência assegurados, e uma chance de carreira de sucesso, indivíduos desprivilegiados são seduzidos por discursos que remontam uma época onde “tudo era melhor”, “tudo dava certo” e prometem reconhecimento e dignidade. Essa virada se deve a uma busca por acolhimento moral diante da humilhação e do abandono social. Esse retorno também aparece também nas narrativas aspiracionais das redes sociais. Influenciadoras como Nara Smith, que posta vídeos de receitas caseiras elaboradas e tem uma estética doméstica quase ritualizada, ou Hannah Neeleman, da “Ballerina Farm”, que encarna o ideal de maternidade numerosa, vida rural e feminilidade tradicional, representam uma revalorização do conservadorismo. Suas imagens, ao mesmo tempo sofisticadas e “simples”, traduzem uma nostalgia de papéis sociais definidos, que seduz especialmente as novas gerações em busca de ordem, pertencimento e segurança diante do colapso das promessas de modernidade acelerada. Novamente, volto com a lembrança de que não há nada de errado com pessoas inseridas nesse contexto. O conservadorismo (assim como o ativismo), desde que não opressor ou nocivo a direitos e grupos, não é errado nem um problema a ser combatido, apenas um fenômeno a ser observado, assim como os ativismos e “progressismos” que já foram objetos de estudo no século XXI. O que esses fenômenos deixam claro é que a economia não se manifesta apenas em gráficos ou índices financeiros. Ela atravessa o tecido da vida cotidiana, moldando afetos, desejos e até mesmo o modo como nos apresentamos ao mundo. Em tempos de incerteza, buscamos refúgio no pequeno e no previsível: um gloss-chaveiro, uma coleção de bonequinhos, uma peça de roupa atemporal, um valor confortável. Esses sinais, muitas vezes considerados triviais, revelam-se chaves interpretativas poderosas para compreender o espírito de uma época. Afinal, se as crises econômicas reduzem nossa margem de escolha, é na criatividade cultural e no simbolismo do consumo que encontramos formas de ressignificar a instabilidade e, de algum modo, recuperar a sensação de controle sobre o imprevisível. E a atenção sobre nossos comportamentos e gostos é essencial para evitar que nossa subjetividade suma na medida em que somos colocados na planilha de alguma organização.